Na infância, meu jardim era desenhado com réguas de obediência. Cada flor brotava no lugar exato, as raízes contidas em vasos de porcelana, as pétalas cor de aurora alinhadas como versos de um poema que todos aplaudiam. Eu regava a terra com mãos pequenas e meticulosas, acreditando que a vida era um mapa de sementes pré-plantadas e segredos por trás de um sorriso quieto.
Mas a adolescência chegou como um vendaval de sementes desconhecidas. Rebeldia, aquela planta invasora, cresceu entre as frestas do cimento, quebrando vasos, colorindo o chão de tintas nunca permitidas. Meu jardim virou floresta: raízes subterrâneas entrelaçaram-se a sonhos proibidos, galhos arranharam o céu, e as flores, agora selvagens, dançavam com o vento que as pessoas chamavam de "fase". Eu não explicava. Sabia que até as tempestades são necessárias para que algumas sementes despertem....
Anos depois, caminho pelo mesmo terreno. A colheita é um mosaico de luz e sombra: frutos dourados pendem de árvores que um dia foram consideradas ervas daninhas, enquanto espinhos delicados enfeitam rosas que não desabrocharam como esperado. Há quem olhe e veja excesso, "tantas cores devem cansar os olhos", dizem. Outros sussurram que a abundância é justa, um tributo à coragem de semear no escuro!!!
Eu calo.... Secreta, guardo na palma da mão a semente mais valiosa: aquela que plantei na noite em que a lua era minha única testemunha. Germinou em silêncio, cresceu entre cicatrizes, e hoje seu fruto brilha como um astro roubado do céu. Não é ouro, nem prata.... é algo que só o universo e eu conhecemos...!!!
Talvez a verdadeira colheita nunca caiba em palavras. Fica entre o cultivado e o acaso, entre o que o mundo enxerga e o que as estrelas registram em seus arquivos de luz. Afinal, todo jardim é um pouco magia: mesmo as flores mais perfeitas escondem raízes que se contorceram para encontrar o sol....
TilaC
Imagem criada com IA

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