Entre nós...

....ergue-se não apenas a distância que os mapas medem em quilômetros, mas um abismo feito de tempo e silêncio, onde até os nossos olhares perderam a coragem de se procurar. Antes, bastava um relance, um fio de luz entre as pálpebras, para que o mundo inteiro se reorganizasse em torno do eixo que nos unia. Agora, somos dois pontos cardeais que se recusam a se reconhecer no mesmo horizonte. Os meus olhos buscam o sul como quem procura uma estrela extinta, enquanto os teus, voltados para o nascente, talvez nem lembrem que o norte ainda carrega o peso de um nome que um dia foi sussurrado como uma prece.
Há uma geografia cruel nesse afastamento: cada passo que dou em direção ao poente é um passo que te empurra para mais longe, como se o universo, na sua ironia cósmica, tivesse amarrado os nossos destinos a cordas elásticas que só se esticam, nunca se encurtam. As noites são as piores, pois é quando a memória se torna uma luneta apontada para o passado. Olho para o céu, tentando adivinhar em qual constelação os teus olhos brilham, mas as estrelas são mudas, e a Via-Láctea é apenas um rio de areia fria escorrendo entre os meus dedos. Quantas vezes-me pego fitando o vazio, como se a força do meu desejo pudesse dobrar o espaço e fazer o teu rosto surgir na escuridão? Quantas vezes invento diáculos com o infinito, perguntando se, onde estás, também contemplas esta mesma abóbada celeste e sentes o mesmo frio de saber que estamos sob o mesmo céu, mas nunca sob o mesmo olhar?
Os nossos olhos tornaram-se astros em galáxias diferentes: os meus, um sol que queima sem testemunhas; os teus, talvez uma lua que ilumina outras paisagens. E mesmo que, por milagre, os nossos raios de visão se cruzassem no éter, eles chegariam atrasados, carregando imagens de um passado que já não nos pertence. Porque a luz demora a viajar, amor. Demora tanto que, quando finalmente alcança o seu destino, já é apenas o fantasma de um instante que nunca voltará. Assim são nossos corpos: separados por anos-luz de saudade, condenados a se verem apenas nas versões desbotadas do que um dia foram.
Às vezes, nas estações de trânsito, quando o outono derruba folhas como lágrimas secas ou o verão incendeia o ar com a sua ânsia, imagino que poderia estar num aeroporto qualquer, perdido entre rostos apressados, e de repente encontrar os teus olhos em meio à multidão. Seria rápido, um segundo roubado ao acaso, mas suficiente para que o mundo parasse de girar. No entanto, sei que isso nunca acontecerá. Porque os nossos caminhos não são linhas que se cruzam; são paralelas traçadas por uma mão indiferente, destinadas a avançar lado a lado, mas separadas por um vácuo intransponível. Até os pássaros que migram entre os nossos hemisférios carregam mensagens que nunca ousamos escrever.
E o que é um amor que não se vê? Que não se toca, não se ouve, não se confirma no calor de um sorriso compartilhado? É um poema escrito em tinta invisível, legível apenas no escuro, quando a solidão aperta o peito e a razão se rende. São versos que ecoam nas câmaras mais secretas do coração, onde guardo o teu nome como uma relíquia proibida. Amar-te assim é como venerar uma divindade que nunca mostrou o rosto: ergo altares de memórias frágeis, acendo velas de talvez, e rezo para que, em algum plano além do físico, exista um lugar onde os nossos olhares possam se encontrar sem medir distâncias.
Até os espelhos tornaram-se cúmplices dessa tragédia. Olho-me neles e vejo, por trás do meu próprio reflexo, o vazio do espaço que poderias ocupar. Onde estás, neste exato momento? Estás de pé junto a uma janela, observando o mesmo crepúsculo que tinge o meu horizonte de púrpura? Ou serás apenas um retrato na parede do tempo, uma imagem fixa que a minha mente insiste em animar com sopros de esperança? Não importa. O fato é que, aqui, o meu olhar se espatifa contra o muro do impossível. Grito o teu nome nas paisagens, mas o vento o devolve em pedaços, como se a própria atmosfera se recusasse a carregar o peso do que nunca fomos.
Se ao menos pudéssemos ver-nos uma última vez, ainda que fosse através de um telescópio que ampliasse milênios de distância! Eu contentaria me com um pixel do teu rosto, um brilho fugidio, qualquer sinal de que existes além da névoa dos meus delírios. Mas nem isso nos é permitido. Resta-me a quietude angustiante de saber que, enquanto os meus olhos se fecham para chorar, os teus se abrem para um amanhecer que não me inclui. E assim, dia após dia, noite após noite, vamos nos tornando estranhos até para as nossas próprias histórias.
Talvez, em outra vida, sejamos dois cometas cujas caudas se entrelaçam numa dança cósmica. Ou duas partículas de poeira estelar que, após eras de errância, finalmente se unem para formar uma nova estrela. Mas aqui, nesta existência, somos apenas isso: dois pares de olhos que aprenderam a ver o mundo em preto e branco, porque a cor morreu na hora em que deixamos de nos enxergar.
E, no entanto... Ahhhhhhh, no entanto. Mesmo sabendo que nunca mais os nossos olhares se cruzarão, continuo a procurar-te em cada esquina do universo. Porque amar-te, agora, é um ato de rebeldia contra a geometria do destino. É erguer catedrais de esperança em meio ao deserto. É soprar brasas de saudade no vendaval que insiste em apagá-las. E se um dia essa chama se extinguir, não será por falta de ardor mas, porque o próprio fogo decidiu levar consigo a última prova de que, em algum lugar entre o norte e o sul, houve um amor tão vasto que nem mesmo o infinito conseguiu contê-lo....

TilaC



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